Limites estendidos
Martha Medeiros
Longe de Porto Alegre há um tempão, vivendo uma rotina de cidadezinha do interior, com horas e horas para ler, caminhar e pensar na vida, me perguntava: quanto tempo aguentarei? Duas semanas? Três? Sou da raça das inquietas, daquelas pessoas que estão sempre arranjando alguma coisa pra fazer, então mantenho uma relação de amor e ódio com as férias, sempre fico com medo que repouso demais acabe me estressando.
Mas que nada: fui, vi e venci. Aprendi a me entregar ao ócio sem culpa e hoje sei que meus limites podem ser estendidos. O meu limite de desconexão do trabalho, do relógio e do computador, que sempre foi curto, ampliou-se.
Isso é mais ou menos como atravessar uma fronteira e permitir variações de sim mesmo.
Todo mundo tem seus limites de tolerância. Sabe até onde pode suportar uma abstinência, quanto tempo resiste sem sentir prazer, ou sem sentir-se útil, ou produtivo, ou o que for. E estipulam prazos: “Fico neste casamento até a hora que as crianças crescerem”. “Fico neste emprego apenas enquanto estiver sendo valorizado”. “Vou continuar morando com meus pais apenas até terminar a escola”. Até que nos vemos frente a frente com o fim da estrada: as crianças cresceram, o seu patrão não acena com uma promoção e você terminou os estudos. Vai separar? Pedir demissão? Sair da casa dos pais? É nesta hora que muitos descobrem que ainda têm gás para seguir adiante.
Estender limites que a gente se impõe é como prosseguir viagem após ter chegado ao seu destino: agora vem aquela parte que você não planejou, para o qual não estipulou um roteiro. De repente, descobre que vai, sim senhor, permanecer no casamento, porque as tentativas não foram esgotadas, porque acredita em reversões de quadro, porque precisa saber lidar com altos e baixos.
E vai ficar mais um tempo no emprego também, mesmo o patrão já não lhe achando grande coisa, pois tem uma selva lá fora e você tem que se alimentar, se garantir, pagar suas contas. E vai ficar mais um tempo morando com seus pais, ora bolas, afinal se acostumou com a mordomia e ninguém está lhe chutando pra fora. Nenhum problema nisso, desde que você use esta elasticidade para aprender mais sobre si mesmo, e não para ganhar tempo.
Sempre dá pra gente aguentar mais um tanto, dar uma esticada na nossa resistência, mas sem abdicar das nossas urgências. Eu, elétrica por natureza, reduzi meu ritmo por um tempo longo demais, abusando dos meus limites. Valeu ter aprendido a relaxar, mas aqui é que é a minha praia. Mais um pouco e eu arrebentava de saudades de escrever.
Domingo, 2 de março de 2003.
Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.